Escola Municipal Almerinda Costa
Bolsista Jonatan Silva de Oliveira
09 de Novembro de 2015
Ensaios Do Dia Da Consciência
Negra
No dia 9 de novembro de 2015 fui
eu para mais um dia de aula na Escola Municipal Almerinda Costa.
Saí de casa um pouco atrasado e
ainda contei com o ‘acaso’ de engarrafamentos em diversos pontos do meu trajeto
de Itapuã até o Uruguai, contando com a nova mudança do horário de aula de 8:20
para o horário das 7:30.
Cheguei um pouco atrasado em sala
e tive a surpresa de ver a bolsista Tayane em sala acompanhando a aula e
fazendo suas intervenções. Assim que entrei na sala foi uma alegria da
criançada do 1º ano e G5 ao me ver: “Jonatan!!!”, o professor Marcus Welby
puxou um ‘bom dia’ coletivo: “Bom dia, Jonatan!”. Eu falei: “bom dia meu
povo!”, todo mundo respondeu, mas somente um menininho, ao lado do professor,
já conhecido pelas brincadeiras excessivas, disse: “Bom dia, cabelo de cocô!”.
Eu vendo aquilo logo tratei de problematizar e pedi para que ele repetisse, ele
repetiu bem tímido e eu perguntei “por que meu cabelo é de cocô?”, ele ficou
envergonhado e não falou nada, aí eu pedi para que as crianças cheirassem o meu
cabelo e dissessem se tem cheiro de cocô, aí disseram que tinha cheiro de
batata-frita, creme, cabelo, cheiro bom, mas nenhuma disse que tinha cheiro de
cocô. Logo chegamos a conclusão de que não fazia sentido me chamar de cabelo de
cocô, já que meu cabelo não se parece um cocô e nem cheira a isso. Lembrando
que o meu cabelo é crespo e tem o estilo “Black Power”.
Com esse iniciozinho de aula mais
uma vez presencia-se a reprodução das crianças quanto a padrões estéticos
europeus impostos pela sociedade e ao se depararem com características
afrodescendentes assumidas por alguém a opressão inconsciente é logo atuante na
desqualificação da cultura do povo negro.
As turmas ensaiavam a música ‘Alfabeto
Do Negão’ com o auxílio da LIBRAS para apresentarem no dia da comemoração da
Escola Almerinda Costa do Dia Consciência Negra, que é no dia 20 de Novembro,
mas que será comemorado na escola no dia 27 de Novembro. Todas/os da turma
estavam fazendo direitinho.
Em um determinado momento o
professor Marcus pegou duas meias com figuras de rostos para trabalhar contação
de história com as crianças, de forma que pudesse ilustrar os encontros de
povos no território que hoje é o Brasil. O professor me deu o boneco que era
pra ser a representação do negro africano e ele ficou com o boneco que era pra
ser a representação do branco português/europeu. A gente não havia ensaiado
nada sobre, na verdade eu nem sabia que iríamos trabalhar fantoches contando a
história do Brasil colônia para as crianças. O professor imitou um sotaque
português e iniciou a história dizendo que é um português chamado Manuel e que
iria apresentar o “amiguinho” dele, tratando do africano escravizado pelo
mesmo. Diante disso, minha reação foi ficar calado, em primeiro lugar por não
saber qual era a real proposta daqueles fantoches, em segundo porque os portugueses
do Brasil colônia eram senhores de engenho, mineradores, etc, enquanto o negro
era o seu escravo, trabalhava forçado, distante do seu ambiente e do seu povo,
assim, na minha cabeça veio: “como podem ser amiguinhos o opressor e o
oprimido?”. A minha saída acabou sendo falar algumas palavras em Yorubá.
Percebi que as crianças gostaram da ideia dos fantoches, mas tivemos que
interromper por diversos problemas, inclusive com os bonecos. O trabalhos com
fantoches são interessantes de se fazer, mas talvez precisem de uma
reformulação e de um cuidado maior no momento de contar a história do Brasil.
O primeiro horário terminando
iniciamos o segundo horário, já com a turma do 3º ano.
Levamos a mesma proposta do ‘Alfabeto
do Negão’, ensinando a música com a LIBRAS. Como sempre, um menino que sempre
falo nos relatos, estava bem agitado e querendo dar as instruções da aula.
Nesse dia tinha um menino novo na turma que eu não conhecia e que era bem
inquieto, disperso, apesar da facilidade com as atividades.
Num segundo momento apliamos o
repertório com a música “Raíz de todo bem”, música que ficou bem popular na
Bahia. Nesse momento Tayane assumiu o violão, o vocal e a turma no coro. Foi
bem legal ver a turma bem empenhada em fazer a música acontecer. Em um
determinado momento o professor Marcus saiu por um longo tempo para atender uma
ligação pessoal. Eu e Tayane continuamos trabalhando com a turma.Repetimos
algumas vezes “Raís de Todo Bem”, inclusive Tayane criou arranjo vocal na hora
que ficou bem bacana e alertou a importância da interpretação focada.
Em um segundo momento eu assumi a
turma para que a gente fizesse a percussão do samba-reggae. Decidi no momento
criar a percussão com o corpo, influenciado pelo Seminário Interno do PIBID
Teatro e Música, “Corpondo”,que teve oficina de percussão corporal, e deu muito
certo. Primeiramente mostrei possibilidades de percussão corporal para que as
crianças observassem a beleza nessa formade fazer música, inclusive fazendo
arrocha, auxiliado por Tayane no violão e vocal, depois começamos a dividir o
ritmo para que todas/os pegassem. Fazíamos as primeiras células e cada uma
pessoa da turma tinha que repetir até que todas/os em conjunto finalizassem
para que a gente pulasse de etapa. Por fim fizemos o ritmo do samba-reggae com
todas/os, inclusive aquelas/es que se recusavam a fazer inicialmente, talvez
por medo de errar ou por achar bobo. No fim dessa atividade o professor Marcus
voltou e ele também conseguiu aprendeu o ritmo no corpo, mas algumas crianças
da turma nesse momento já estavam pegando instrumentos sem minha permissão, de
Tayane ou do professor Marcus, mas a grande maioria ouvia quando a gente
explicava que o dia era de percussão corporal, mas somente um menino toda hora
pegava instrumento, não respeitava, falava alto, abusava, até que Marcus acabou
tirando da sala. Nesses momentos de busca de atenção que eu resolvi fazer uma
metodologia de pedir atenção que aprendi com integrantes e amigas/os de um
grupo de educação ambiental chamado EDUCAMARES, que consiste em perguntar “quem
está me ouvindo”, com a mão levantada para que quem estiver ouvindo levante
também a mão em sinal de compreensão, aí quem está conversando percebe todo
mundo de mão levantada e acaba prestando atenção. Acabou que nessa pergunta com
freqüência para que todas/os atentassem ao pedido que Tayane criou a
musiquinha:
“Terceito ano, quem ta me ouvindo”
(2X)
“Terceiro ano, pedi pra para
parou!”
Isso foi muito bom, porque a
gente agora tem uma música pra pedir atenção que toda turma gosta e canta
junto.
Por fim, Marcus sugeriu que a
gente finalizasse com os instrumentos de percussão para ver quem acompanhava os
ritmos sem errar até ver quem vencia, o que achei bem legal. Nesse momento o menino que estava abusando e
foi retirando retornou pra sala a pedido da direção, o que considero bem
importante. No fim da brincadeira, quem venceu foi uma menina que no geral fica
bem tímida na sala.
Nesse dia senti falta de uma
maior comunicação entre bolsistas e supervisor, porque a aula poderia ter sido
bem melhor se a gente soubesse qual era o planejamento do dia pras turmas. Mas
os caminhos vãos sendo construídos por a gente acreditar, por isso seguimos.
MÚSICAS ESTUDADAS:
Alfabeto do Negão
Compositor(a): Rey
Zulu / Tropicalia Ytthamar
A, E, I, O, U
Sou do Curuzu
B, C, D, F, G
Sou negão do Ilê
Bate na palma da mão pra vim ver
Bate na palma da mão pra vim ver
Bate na palma da mão pra vim ver
A passagem do Ilê Aiyê
Cadê a Bahia na palma da mão
Cadê a Bahia na palma da mão
Cadê a Bahia na palma da mão
Cantando o alfabeto do negão
Raiz De Todo Bem
Compositor(a): Saulo Fernandes
(...)
(Refrão)
Africa iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem de tanta fé
Do canto o Candomblé
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem de tanta fé
Do canto o Candomblé
(...)
É isso aí...
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