segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Ensaios Do Dia Da Consciência Negra

Escola Municipal Almerinda Costa
Bolsista Jonatan Silva de Oliveira
09 de Novembro de 2015



Ensaios Do Dia Da Consciência Negra
No dia 9 de novembro de 2015 fui eu para mais um dia de aula na Escola Municipal Almerinda Costa.
Saí de casa um pouco atrasado e ainda contei com o ‘acaso’ de engarrafamentos em diversos pontos do meu trajeto de Itapuã até o Uruguai, contando com a nova mudança do horário de aula de 8:20 para o horário das 7:30.
Cheguei um pouco atrasado em sala e tive a surpresa de ver a bolsista Tayane em sala acompanhando a aula e fazendo suas intervenções. Assim que entrei na sala foi uma alegria da criançada do 1º ano e G5 ao me ver: “Jonatan!!!”, o professor Marcus Welby puxou um ‘bom dia’ coletivo: “Bom dia, Jonatan!”. Eu falei: “bom dia meu povo!”, todo mundo respondeu, mas somente um menininho, ao lado do professor, já conhecido pelas brincadeiras excessivas, disse: “Bom dia, cabelo de cocô!”. Eu vendo aquilo logo tratei de problematizar e pedi para que ele repetisse, ele repetiu bem tímido e eu perguntei “por que meu cabelo é de cocô?”, ele ficou envergonhado e não falou nada, aí eu pedi para que as crianças cheirassem o meu cabelo e dissessem se tem cheiro de cocô, aí disseram que tinha cheiro de batata-frita, creme, cabelo, cheiro bom, mas nenhuma disse que tinha cheiro de cocô. Logo chegamos a conclusão de que não fazia sentido me chamar de cabelo de cocô, já que meu cabelo não se parece um cocô e nem cheira a isso. Lembrando que o meu cabelo é crespo e tem o estilo “Black Power”.
Com esse iniciozinho de aula mais uma vez presencia-se a reprodução das crianças quanto a padrões estéticos europeus impostos pela sociedade e ao se depararem com características afrodescendentes assumidas por alguém a opressão inconsciente é logo atuante na desqualificação da cultura do povo negro.
As turmas ensaiavam a música ‘Alfabeto Do Negão’ com o auxílio da LIBRAS para apresentarem no dia da comemoração da Escola Almerinda Costa do Dia Consciência Negra, que é no dia 20 de Novembro, mas que será comemorado na escola no dia 27 de Novembro. Todas/os da turma estavam fazendo direitinho.
Em um determinado momento o professor Marcus pegou duas meias com figuras de rostos para trabalhar contação de história com as crianças, de forma que pudesse ilustrar os encontros de povos no território que hoje é o Brasil. O professor me deu o boneco que era pra ser a representação do negro africano e ele ficou com o boneco que era pra ser a representação do branco português/europeu. A gente não havia ensaiado nada sobre, na verdade eu nem sabia que iríamos trabalhar fantoches contando a história do Brasil colônia para as crianças. O professor imitou um sotaque português e iniciou a história dizendo que é um português chamado Manuel e que iria apresentar o “amiguinho” dele, tratando do africano escravizado pelo mesmo. Diante disso, minha reação foi ficar calado, em primeiro lugar por não saber qual era a real proposta daqueles fantoches, em segundo porque os portugueses do Brasil colônia eram senhores de engenho, mineradores, etc, enquanto o negro era o seu escravo, trabalhava forçado, distante do seu ambiente e do seu povo, assim, na minha cabeça veio: “como podem ser amiguinhos o opressor e o oprimido?”. A minha saída acabou sendo falar algumas palavras em Yorubá. Percebi que as crianças gostaram da ideia dos fantoches, mas tivemos que interromper por diversos problemas, inclusive com os bonecos. O trabalhos com fantoches são interessantes de se fazer, mas talvez precisem de uma reformulação e de um cuidado maior no momento de contar a história do Brasil.
O primeiro horário terminando iniciamos o segundo horário, já com a turma do 3º ano.
Levamos a mesma proposta do ‘Alfabeto do Negão’, ensinando a música com a LIBRAS. Como sempre, um menino que sempre falo nos relatos, estava bem agitado e querendo dar as instruções da aula. Nesse dia tinha um menino novo na turma que eu não conhecia e que era bem inquieto, disperso, apesar da facilidade com as atividades.
Num segundo momento apliamos o repertório com a música “Raíz de todo bem”, música que ficou bem popular na Bahia. Nesse momento Tayane assumiu o violão, o vocal e a turma no coro. Foi bem legal ver a turma bem empenhada em fazer a música acontecer. Em um determinado momento o professor Marcus saiu por um longo tempo para atender uma ligação pessoal. Eu e Tayane continuamos trabalhando com a turma.Repetimos algumas vezes “Raís de Todo Bem”, inclusive Tayane criou arranjo vocal na hora que ficou bem bacana e alertou a importância da interpretação focada.
Em um segundo momento eu assumi a turma para que a gente fizesse a percussão do samba-reggae. Decidi no momento criar a percussão com o corpo, influenciado pelo Seminário Interno do PIBID Teatro e Música, “Corpondo”,que teve oficina de percussão corporal, e deu muito certo. Primeiramente mostrei possibilidades de percussão corporal para que as crianças observassem a beleza nessa formade fazer música, inclusive fazendo arrocha, auxiliado por Tayane no violão e vocal, depois começamos a dividir o ritmo para que todas/os pegassem. Fazíamos as primeiras células e cada uma pessoa da turma tinha que repetir até que todas/os em conjunto finalizassem para que a gente pulasse de etapa. Por fim fizemos o ritmo do samba-reggae com todas/os, inclusive aquelas/es que se recusavam a fazer inicialmente, talvez por medo de errar ou por achar bobo. No fim dessa atividade o professor Marcus voltou e ele também conseguiu aprendeu o ritmo no corpo, mas algumas crianças da turma nesse momento já estavam pegando instrumentos sem minha permissão, de Tayane ou do professor Marcus, mas a grande maioria ouvia quando a gente explicava que o dia era de percussão corporal, mas somente um menino toda hora pegava instrumento, não respeitava, falava alto, abusava, até que Marcus acabou tirando da sala. Nesses momentos de busca de atenção que eu resolvi fazer uma metodologia de pedir atenção que aprendi com integrantes e amigas/os de um grupo de educação ambiental chamado EDUCAMARES, que consiste em perguntar “quem está me ouvindo”, com a mão levantada para que quem estiver ouvindo levante também a mão em sinal de compreensão, aí quem está conversando percebe todo mundo de mão levantada e acaba prestando atenção. Acabou que nessa pergunta com freqüência para que todas/os atentassem ao pedido que Tayane criou a musiquinha:
“Terceito ano, quem ta me ouvindo” (2X)
“Terceiro ano, pedi pra para parou!”
Isso foi muito bom, porque a gente agora tem uma música pra pedir atenção que toda turma gosta e canta junto.
Por fim, Marcus sugeriu que a gente finalizasse com os instrumentos de percussão para ver quem acompanhava os ritmos sem errar até ver quem vencia, o que achei bem legal.  Nesse momento o menino que estava abusando e foi retirando retornou pra sala a pedido da direção, o que considero bem importante. No fim da brincadeira, quem venceu foi uma menina que no geral fica bem tímida na sala.
Nesse dia senti falta de uma maior comunicação entre bolsistas e supervisor, porque a aula poderia ter sido bem melhor se a gente soubesse qual era o planejamento do dia pras turmas. Mas os caminhos vãos sendo construídos por a gente acreditar, por isso seguimos.

MÚSICAS ESTUDADAS:

Alfabeto do Negão 
Compositor(a): Rey Zulu / Tropicalia Ytthamar

A, E, I, O, U
Sou do Curuzu
B, C, D, F, G
Sou negão do Ilê

Bate na palma da mão pra vim ver
Bate na palma da mão pra vim ver
Bate na palma da mão pra vim ver
A passagem do Ilê Aiyê

Cadê a Bahia na palma da mão
Cadê a Bahia na palma da mão
Cadê a Bahia na palma da mão
Cantando o alfabeto do negão

Raiz De Todo Bem
Compositor(a): Saulo Fernandes

(...)
(Refrão)
Africa iô iô
Salvador, meu amor
A raiz de todo bem de tanta fé
Do canto o Candomblé
(...)



É isso aí...
Axé!

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